Chamada para coletânea sobre “Lugar de fala”a para

Aviso: Prorrogado até 07/08/2019 

Enviar textos para: lugardefala@editoradevires,com.br

Através da presente chamada pública, a Editora Devires convida a todas e todos a submeterem propostas de textos inéditos para compor a primeira edição do selo Coleção Indisciplinada, cujo primeiro tema será “Lugar de fala”.

Apresentação

A Coleção Indisciplinada é um selo da Editora Devires que vai publicar textos curtos de até dez mil caracteres, inéditos, apenas com citações diretas (sem recuo), em edições temáticas, sendo a edição de estreia com 07 (sete) textos sobre o tema “lugar de fala”.

 

A noção de “lugar de fala” e os ativismos que dela derivam pode ser considerada um dos assuntos mais debatidos nas discussões a respeito de visões de mundo, experiências e saberes localizados, e deriva, principalmente, dos feminismos negros que logo identificaram a impossibilidade do feminismo surgido nos anos 60 de dar conta das diversas questões que perpassavam mulheres racializadas. Djamila Ribeiro1 mostra como o conceito se articula com o direito à voz e a escuta de vozes marginalizadas, no qual é importante que cada indivíduo seja capaz de identificar o seu lugar de fala em uma estrutura social logocentrada com marcadores hegemônicos em relação ao gênero, raça e classe social. Para a autora, o termo pode ter surgido a partir da tradição de discussão sobre feminist standpoint, diversidade, teoria racial crítica e pensamento decolonial2.

Espraiando-se por outras subjetividades e sujeitos, a noção de lugar de fala coloca-se como ponto principal para pensar outras formas de ontologia como as de pessoas trans, travestis, intersexuais, cadeirantes, vozes constantemente silenciadas nas discussões que dizem respeito aos direitos humanos e às conquistas plenas de cidadania. Lugar de fala, então, nunca pretendeu proibir ninguém de falar, mas desconstruir a ideia de universalidade e de voz única. Pensando no conceito de “corpopolítica”3, é subverter o cogito cartesiano “penso, logo existo” para um saber e vivência localizada e particular que afirma “se é de onde se pensa”. A corpopolítica é um termo recorrente usado por Walter Mignolo e é uma contestação à biopolítica mediante a qual os Estados inventaram instrumentos de controle da população conforme os estudos de Foucault. É Ramón Grosfoguel quem sugere falar de corpopolítica para fazer visível as questões de gênero, raça, sexualidade de um corpo pensante. O conhecedor está sempre implicado corpo e geopoliticamente, ou seja, os conhecimentos são localizados.

A criação de um conceito tem causas e consequências importantes para o pensamento humano e espera-se que, numa visão materialista, ele tenha reflexos concretos na vida e na realidade em que opera. É visível que os ativismos do lugar de fala provocam deslocamentos importantes no debate que dizem respeito à vida de pessoas minorizadas, subalternizadas e na maneira como as reações ao termo e à visibilidade dessas questões afetam a própria maneira de se fazer política. João Manuel de Oliveira acredita que o termo “deixou de constituir uma forma de denotar uma determinação posição no discurso para passar a ser uma forma de controlar quem diz o quê”4. O conceito tem sido estratégico e útil para os artivismos das dissidências sexuais e de gênero5 que provocam deslocamentos importantes ao transformarem experiências individuas e coletivas localizadas em formas de denunciar o projeto modernizante que cria sujeitos diferenciados e marginalizados, mas também maneiras de resistência ao projeto de normatização imposto a todos os corpos desde o século XVIII.

Interessa que os trabalhos apresentados para compor a coleção discutam, dentre outros pontos:

(a) o relato de experiências próprias ou de terceiros, descrição de obras e produções artísticas, ativistas, no qual o conceito possa ser exemplificado e debatido;

(b) análises e reflexões que enfoquem os limites e as potências do lugar de fala;

  1. genealogias que demonstrem a maneira como saberes localizados e sujeitos subalternizados e minorizados passaram da invisibilidade para a visibilidade;
  2. textos que demonstrem conflitos e enfrentamentos surgidos após o protagonismo de sujeitos invisibilizados;
  3. trabalhos que demonstrem de que maneira os saberes e experiências localizados vão de encontro aos saberes disciplinados e canônicos;
  4. relatos que evidenciem de que maneira se construiu o silenciamento de determinadas vozes ou, ao contrário, de que maneira o lugar de fala contribui para a construção da ideia de uma identidade única;

(c) construções discursivas e práticas que coloquem os sujeitos silenciados em locais de destaque e protagonismo a partir do ativismo do lugar de fala ou de que maneira ele poderia representar uma barreira na compreensão da complexidade das diferenças.

Normas para apresentação dos manuscritos

Os textos podem ser submetidos em formato DOC, DOCX ou RTF até 30 de julho de 2019 exclusivamente através do e-mail lugardefala@editoradevires.com.br

Na primeira página do texto deve constar o título, nome dxs autorxs junto com biografia resumida de três linhas, endereço de e-mail e telefone para contato.

Os textos não devem exceder os 10 mil caracteres e devem apresentar um mínimo de 7 mil caracteres, incluindo título e notas de rodapé. A formatação deve seguir assim: fonte Times New Roman, 12, espaçamento 1,5, margens de 3 cm. Notas de rodapé: fonte Times New Roman, 10, espaçamento simples. Todos o texto deve usar alinhamento justificado. Não serão aceitos textos com fotos ou gráficos.

Referências:

– notas de rodapé são aceitas desde que sejam fundamentais para a compreensão do texto, não podendo exceder cinco linhas;

– citação indireta: (Deleuze, 2009), ou, …conforme Deleuze (2009)…

  • citação direta: “entre aspas” (Deleuze, 2009, p.30) – com no máximo três linhas, sem possibilidade de citação com recuo
  • as referência devem vir em nota de rodapé, conforme as normas ABNT, como: MIGNOLO, Walter. Trayectorias de re-existencia: ensayos em torno de la colonialidade/decolonialidad del saber, el sentir y el creer. Bogotá: Universidad Distrital Francisco José de Caldas, 2015.

Critérios de seleção e prazos

A seleção dos trabalhos adotará como princípio os seguintes critérios de avaliação:

  1. Atenção ao interesse temático das propostas frente à chamada do edital público;
  2. A qualidade argumentativa e a criatividade temática na condução dos textos;
  3. Distribuição regional de autoras e autores de modo a garantir uma ampla representatividade regional conforme as propostas recebidas;

O volume de trabalhos selecionados não será predeterminado, ainda que a editora se reserve ao direito de cancelamento do projeto caso as propostas encaminhadas não sejam suficientes para compor a obra ou não atendam aos critérios de avaliação.

O resultado preliminar dos trabalhos selecionados para compor a coletânea será comunicado através do e-mail com a aprovação ou pedido de correções até dia 30 de julho de 2019. Aos autores e autoras contemplados não incorrerá ônus para o custeio da obra, lhes sendo garantida também a cessão de até dois exemplares gratuitamente, além do direito autoral sobre seus próprios textos.

Da comissão avaliadora

As propostas encaminhadas serão avaliadas pelos responsáveis pela organização da obra, Nzinga Mbandi (doutoranda no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a mulher), Gilmario Nogueira (doutorando em Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia), Marcelo de Troi (jornalista e doutorando em Cultura e Sociedade na Universidade Federal da Bahia).

Salvador, 02 de fevereiro de 2019.

1 RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? São Paulo: Editora Letramento (Coleção Feminismos Plurais), 2017.

2 Idem, p. 58.

3 MIGNOLO, Walter. Trayectorias de re-existencia: ensayos em torno de la colonialidade/decolonialidad del saber, el sentir y el creer. Bogotá: Universidad Distrital Francisco José de Caldas, 2015.

4 OLIVEIRA, João Manuel de. Feminismos são para toda a gente. Blog Esquerda.net, Lisboa, 10 mar. 2018 Disponível em: https://www.esquerda.net/artigo/feminismos-sao-para-toda-gente/53614.

5 COLLING, Leandro. A emergência dos artivismos das dissidências sexuais e de gêneros no Brasil da atualidade. Sala Preta, v. 18, n. 1, p. 152-167, 30 jun. 2018.

 

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